Com um porsche em alta velocidade (116 km/h) um engenheiro matou uma
advogada. E disse: “Estava nos planos de Deus”. O Brasil é um dos
campeões mundiais em mortes no trânsito (mais de 42 mil, em 2010).
Montesquieu, Beccaria e todos os iluministas diziam, no século XVIII,
que “causas de atos indesejados” são as leis injustas assim como a
existência de humanos irracionais, supersticiosos e “não ilustrados”. O
que mais existe no Brasil, no entanto, é gente pouco ilustrada (3/4 da
população não sabem ler ou escrever ou não entendem o que lê ou não
sabem operações matemáticas mínimas – pesquisa Inaf). As mortes no
trânsito, de qualquer modo, são geradas por todos (ilustrados ou não
ilustrados).
Somos rigorosos e exigentes com o Estado. Cobramos
dele duramente o cumprimento dos seus deveres (de fiscalização, de
engenharia das estradas, de primeiros socorros e de punição). Mas
normalmente descuidamos dos nossos. Ato típico de povo mal educado para a
cidadania, ou seja, muito pouco domesticado (como dizia Nietzsche),
independentemente da classe social. Dirigimos depois de beber ou em alta
velocidade e atropelamos pedestres e ciclistas nos julgando “ases no
volante” e protegidos por forças superiores. A cultura da
irresponsabilidade está impregnada no nosso DNA. Não somos treinados
para a prevenção. Não abrimos mão dos nossos prazeres (beber, falar ao
celular, correr etc.) para privilegiar nossos deveres de cidadania e
convivência coletiva. Estatisticamente, 75% dos acidentes derivam de
falhas humanas (destaque para a imprudência e o álcool). Nenhuma morte
como “plano de Deus” aparece na estatística.
O brasileiro é
pacato (dizem), salvo na direção do veículo, na violência machista, na
agressão dos pais contra as crianças, nas ofensas aos idosos, nos
estádios de futebol, nas manifestações... O Detran de SP, por exemplo,
só investe 0,05% do dinheiro de multas em educação para o trânsito
(Folha de S. Paulo de 01.08.12, p. C1). Isso não escandaliza. Também nós
não nos educamos, muitas vezes nem sequer para a vida (do contrário, ¾
da população não seriam analfabetos ou precariamente alfabetizados).
A
conscientização, a responsabilidade individual, a noção de cidadania e o
respeito ao outro são a solução para menos mortes no trânsito. Quem já
alcançou isso? Os países adeptos do capitalismo financeiro evoluído e
distributivo (Dinamarca, Coreia do Sul, Noruega, Japão, Canadá etc.).
Colhem os bons frutos da educação universal, têm baixíssima violência,
trânsito seguro e alta qualidade de vida. Nos países de capitalismo
financeiro selvagem e extrativista, moralmente degenerados, ao
contrário, prospera o ignorantismo e a superstição (não a
responsabilidade individual, o imperativo dos deveres e o aprimoramento
ético). O homo democraticus do século XXI, nesses países, abusa da sua vulgaridade e irresponsabilidade.
Temos
ojeriza a obedecer às leis assim como à igualdade no trânsito. Nunca
imaginamos que o “vermelho” é “vermelho” para todos (ricos e pobres,
pretos ou brancos). Na nossa cultura hierarquizada, os membros das
classes superiores (A e B) se sentem no direito de ter privilégios
frente ao sistema legal (DaMatta). Concordamos que os motoristas
irresponsáveis sejam punidos severamente, mas não observamos as regras
de trânsito (ultrapassamos em lombadas e andamos no acostamento e na
contramão). A possibilidade de um acidente aumenta 23,2 vezes quando se
digita uma mensagem ao volante (Valor Econômico de 30.03.12, p. D8):
isso é corriqueiro e ainda trafegamos sem cinto de segurança, com luzes
queimadas ou freios não revisados. Observar as leis no Brasil, como se
diz, é coisa de gente idiota, tola, inferior, sem relações sociais e sem
os capitais distintivos de classe (econômico, salarial, cultural,
social, emocional, moral/ético e familiar). Nós, tolos não somos; somos
imbecis (muitas vezes).